meio do céu

meio do céu

conclamamos os astrólogos
as tarólogas ofertamos nossas
patas à leitura e sobramos na
borra do café porque somos
os únicos bichos preocupados
com o futuro

no entanto
saturno
pode ser apenas pedra
e júpiter pedra
e urano e mercúrio e marte
também a mais pura e
gravitacional rocha
os oceanos sofrem a influência
da lua porém nossos corpos
comportam marés bravias
e o universo não tem assunto
com isso

somos menos que o grão moído
nada nutrimos e causamos
apenas vícios
somos menos que uma concha quebrada
porque o papel da concha
não é adivinhar o porvir
mas se pisada e partida e se nenhuma
metáfora de vida puder ser encontrada
a concha existe e nada espera
porque isso se basta

mas nós aguardamos
balançamos as pernas
queremos compreender
escritos
sobre a casa 2 e vênus
em peixes
queremos o carisma dos melhores
signos e a capacidade de vingança
dos animais peçonhentos

temos a identidade
fragmentada
por mitos
por estrelas que morrem paralelas

buscamos as cartas
as runas búzios moedas as linhas
das palmas os exames caseiros de gravidez
as revistas do joão bidu
queremos o futuro entregue
mas não qualquer presságio

somos ingratos com o acaso
brincamos com a envergadura da nossa força
inutilizada pela ânsia
pelos corações apressados batendo tambores
lendo papéis pelas ruas
esperando pelo amor que seja devolvido
contando os dias a partir da palavra
da mais teatral
feiticeira
do mais serpentino pastor

cortamos nossas raízes e estamos perdidos
acreditamos no contrário
traçamos conjunções e plutônicos
dizemos que somos os mesmos que
todos os outros milhões
de antepassados

mas veja bem
talvez sejamos
talvez não estejamos
tão escandalosamente
errados
estamos mesmo
com o futuro
todos muito
preocupados

 

– poema do meu livro “Um buraco com meu nome

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